sábado, 19 de fevereiro de 2011

A Certeza da Data




«Que valem triunfos que não têm data?» Que valem, na verdade? É a certeza da data que imprime realidade às coisas que, sem essa certeza encarnadora, apenas passadas, se desfariam na diafaneidade e impalpabilidade do Tempo. Todo o nosso viver consiste num rolo de sonhos que se vão desprendendo de nós, fugindo para trás como o fumo de uma tocha que corre, depressa adelgaçados, logo esvaídos. São as datas que prendem, retêm esses sonhos: nelas ficam imóveis, em torno delas se condensam, por elas ganham forma e duração.
Foi entrevendo esta verdade que Bossuet, numa grande imagem, comparou os dias felizes de uma existência a pregos de ouro cravados numa parede escura. Esses pregos eram as datas, onde as venturas dessa existência, que já voavam, se iam dissipar na eternidade, ficaram presas, imóveis, resplandecendo como pontos de ouro.

Eça de Queirós


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Recicl'arte


Não há Nada que Resista ao Tempo

Não há nada que resista ao tempo. Como uma grande duna que se vai formando grão a grão, o esquecimento cobre tudo. Ainda há dias pensava nisto a propósito de não sei que afecto. Nisto de duas pessoas julgarem que se amam tresloucadamente, de não terem mutuamente no corpo e no pensamento senão a imagem do outro, e daí a meia dúzia de anos não se lembrarem sequer de que tal amor existiu, cruzarem-se numa rua sem qualquer estremecimento, como dois desconhecidos.
Essa certeza, hoje então, radicou-se ainda mais em mim.
Fui ver a casa onde passei um dos anos cruciais da minha vida de menino. E nem as portas, nem as janelas, nem o panorama em frente me disseram nada. Tinha cá dentro, é certo, uma nebulosa sentimental de tudo aquilo. Mas o concreto, o real, o número de degraus da escada, a cara da senhoria, a significação terrena de tudo aquilo, desaparecera.

Miguel Torga

Esta agenda foi forrada com tecido de uma t-shirt que eu já não vestia e que estava prestes a servir de esfregão ou a ir para o lixo. Dei-lhe um toque especial com a renda de bordado inglês de uma blusa que também já não usava.



quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Recicl'arte


Para fazer estes brincos usei a técnica explicada aqui! São necessárias 4 cápsulas, 2 pérolas de vidro, duas folhinhas prateadas... Furei as quatro cápsulas, depois de as colar, ficando com duas faces.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Recicl'arte

Achate com um martelo as cápsulas de café Nespresso, depois enfeite com pérolas e fio de cobre. Forre as cápsulas do avesso, colando pelica ou feltro e deixando uma pequena abertura para passar o fio de couro de grossura média. Prenda as cápsulas ao couro e remate no final de cada cápsula com duas ou três voltas de fio de cobre.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Matar o tempo


Há quem o mate por querer,
Sem lhe tirar nunca a vida,
Pobre é todo o que o perder.
E tem mais que uma medida.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Quem ama nunca sabe o que ama


O Meu Olhar


O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Alberto Caeiro


Este dia, assinalo-o com esta pregadeira, bem amorosa, em patchwork embutido.


A técnica usada para fazer o coração está explicadinha aqui:




domingo, 13 de fevereiro de 2011

Corações ao vento


O Erro de Querer Ser Igual a Alguém



Aqui, neste misérrimo desterro
Onde nem desterrado estou, habito,
Fiel, sem que queira, àquele antigo erro
Pelo qual sou proscrito.
O erro de querer ser igual a alguém
Feliz em suma — quanto a sorte deu
A cada coração o único bem
De ele poder ser seu.

Ricardo Reis